Ela era composta por amores passados, mal resolvidos; em que nem todas às vezes eles realmente a pertenceram. Mas vivia de fantasia; longe do mundo real, longe da realidade conturbada e triste, longe de todos os desgostos e lágrimas. E assim vivia, incompleta mas completa. Completa por ilusões que nunca se tornariam reais. Completa por quase-amores, quase-amigos e quase-felicidade. Quase, nunca era completa realmente. E fartara-se disso, de seus "quases". Se ela sentia verdadeiramente e completamente, porquê os outros à sua volta não conseguiam? A resposta era simples: eram completos por realidade. Como se não soubesse que realidade em demasia - assim como as ilusões -, fazia mal. E a falta de amor, é claro. Como poderia viver o ser humano sem amor? Sem esse sentimento que movia tudo? Na maioria das vezes era tudo tão rápido. Casavam-se em um ano, para no próximo ou dali uns três anos no máximo, se divorciarem. E isso de certo não era amor.
Não que o amor seja tudo, mas de certo é a maior parte.
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sábado, 3 de setembro de 2011
sábado, 27 de agosto de 2011
Amargura do amor
Não sei em que ponto comecei a perder dos olhos a beleza do mundo. Em que ponto parei de apreciar coisas simples, e tão sensíveis. Em que ponto perdi a sensibilidade. Em que ponto deixei de ser quem era, para me tornar o que sou hoje: amarga. Digo amarga porque me sinto como uma velha ranzinza de poucos anos. É que certas coisas já não me descem mais como antes, elas simplesmente entalam na garganta - ou pior, sequer entram nela. Sinto repulsa, simples. Amor de mais, por exemplo, é algo que já não suporto. Tanto mel já não é pra mim, pelo contrário, tenho preferido o salgado ao doce. Talvez seja porque me desapaixonei, e com isso perdi à vontade que existia do mundo, e talvez, das pessoas e certas atitudes. Não só atitudes como palavras. Creio que também perdi - quase - todo o senso de humor que existia; Não tem como negar, me tornara amarga. E pior ainda: uma amargura que vem de dentro. Sequer superficial. Mas acredito que seja reversível, afinal, tanta amargura uma hora terá que se tornar doçura. Mas não doçura de mais. Tudo que é demais enjoa. Assim como enjoei do amor, porque chega uma hora que simplesmente não dá mais. O amor não lhe desce mais - ele entala, e te faz engasgar. Então você toma raiva, e enjoa. Só porque não foi como você esperava. E daí em diante as coisas vão perdendo a beleza, perdendo o gosto, a vontade. Tudo que era possível se torna impossível. Tudo o que era em conjunto se torna solitário. Solidão. Amargura. - Até que um dia, por algum milagre ou força do destino, você enxerga a beleza nos olhos de alguém. E então se apaixona. E tudo recomeça.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
As três faces ocultas
Não vivo de títulos, corro de rotulações, e nunca sei quem sou. Às vezes, quando me olho no espelho, vejo a doce menina inocente que ainda consegue acreditar de olhos fechados nas pessoas. Em outras, vejo a garota com o veneno na ponta da língua, que fala sem pensar duas vezes se a sua sinceridade vai machucar alguém, e tem sede de vingança. E por outras, vejo a mulher que tem sede de independência que vive no mais profundo que consegue; Jura pra si mesma quando esquece o carinha da vez, que nunca mais vai parar a sua vida por outro cara, mas acaba se esquecendo do juramento à cada vez que um novo amor aparece. O amor próprio vira na primeira esquina que encontra, e no dia seguinte ela já não se lembra mais da mulher independente que renascera nos dias de solidão vazia. E vivo assim, com as minhas três faces ocultas. Nunca me mostrando realmente por completo à alguém, e acabando por surpreender à mim mesma quando encontro algum detalhe perdido dentro de alguma esquina escura do meu ser.
Ary Leal
Ary Leal
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